sábado, 27 de fevereiro de 2010

Eu no volante, perigo constante

Barbeira. Descobri que sou barbeira, definitivamente. Minha mãe, defendendo o meu moral, insiste em dizer que não, não sou barbeira. “Filha você é distraída”, repete ela, na tentativa de me convencer de que meus deslizes no trânsito são apenas...distrações. Ainda não me convenci disso, e me defino barbeira. Sem remorsos. Mas, frustrante. Tem gente que nasceu para viver na boleia, eu ainda não sei para quê vim ao mundo, mas, estou certa de que não foi para viver na boleia. Uma pena.
Eu tirei carteira aos 18 anos, assim, recém-completados e eu já dirigindo. Nunca tinha pegado o carro até iniciar as aulas na autoescola. Embora a falta de prática, eu não era tão ruim assim. Fiz as aulas necessárias, nem mais e nem menos. Passei de primeira, juro, sem suborno. Até a baliza eu fiz. Quando desci do carro, após ter feito a baliza mais perfeita (e a única) de toda a minha vida, minha instrutora (uma perua, que passava cremes nas mãos para não ficar com rugas, vestia-se muito bem, sempre de salto e cabelos escovados, uns 26 anos) deu um grito e correu para me abraçar. Pronto: eu era motorista. Orgulho.
O orgulho durou pouco. Um ano. Meus 18 anos foram bem aproveitados, de acordo com uma amiga minha, com a quantidade que rodei de carro nessa época eu poderia ter ido à Lua. Exagero, pode ser, mas que eu dirigi muito, dirigi. Levava todo mundo para todos os cantos, já que eu fui a primeira da turma a tirar a tal da carteira de motorista. Eu dirigia razoavelmente, mesmo sem experiência.
Então, numa tarde, na qual tínhamos combinado de ir ao cinema, ao atravessar uma das avenidas principais da cidade, um bêbado, doido, num opala caindo aos pedaços, bateu no carro, no carro do meu pai. Foi o fim. E, pior, como eu tinha atravessado a preferencial, a culpa, de acordo com as leis de trânsito, era minha. A batida foi feia, a gente rodou. O carro entortou. O bêbado maluco estava estacionado, na hora em que eu fui atravessar a avenida, ele resolveu ligar o carro e sair em alta velocidade. Não teve outra: PUM! Batida.
Faltava um mês para eu tirar a carteira definitiva, eu ainda estava com a permissão. Eu chorava, primeiro porque o bêbado era um estúpido, falava mole, tentando me xingar,tiveram inclusive que segurar ele, sabe-se se lá o que ele faria naquela situação, dominado pelo álcool. Também, eu chorava por causa da bronca que levaria, já imaginando o sermão do meu pai, mesmo eu não estando errada. E os policiais sabiam que a minha carteira era a permissão. Perdi a carteira, pensava.
No fim os policiais foram bacanas, não levaram a minha carteira, deixaram tudo no nome do meu pai. Ficamos de acertar com o bêbado, que teve a sorte de estar na preferencial. Apesar das testemunhas, meu pai não quis discutir muito com o sujeito, porque, pelo que aparentava, não parecia muito boa gente. Na época, o bêbado levou uns bons trocados da minha família. E isso custou caro para mim. Perdi a minha liberdade de dirigir. Passei anos sem pegar no carro direito. Meu pai me azucrinava, me dava mil conselhos antes de sair de casa, me lembrava do valor que ele tinha pagado ao bêbado. Cansei, desisti de dirigir.
Voltei ao volante há uns seis meses, por insistência da minha mãe. Eu até gosto de dirigir, mas não ando muito inspirada. Parece que regride tudo, pois eu não deixava o carro morrer quando eu tirei a carteira, hoje, isso vive acontecendo. Também não errava constantemente as trocas de marcha e nem fazia as curvas como eu faço hoje. Minhas curvas são péssimas. Eu culpo o carro, lamento pelo câmbio duro, pelo volante duro, pelo banco fora do lugar. Eu sei que não é o câmbio, não é o volante e nem o banco. Sou eu. Eu barbeira. Bibi! Fonfon! Pepê

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O retorno

Eu lembro de quando vim embora, de quando Guarapuava, de certa forma, ficou pequena. Eu vim chorando em companhia do caminhoneiro que foi buscar a minha mudança. Entre a cômoda, a máquina de lavar roupas e os meus outros pertences: eu. Eu deixando a vida universitária. Era triste deixar todo mundo, era doloroso saber que dali para frente era cada um por si, cada um para o seu canto. De canto em canto, foi-se todo mundo.
E toda vez que percorro os 200 e poucos quilômetros que me separam de Guarapuava, sinto dores semelhantes a da partida. O retorno, mesmo sendo bom, é penoso. As ruas contam histórias, o céu (que é mais azul) traz lembranças, o vento frio estimula a memória e o prédio onde vivi inspira inúmeras situações, das mais engraçadas às mais tristes, algumas bizarras. Daí todo mundo se vê, se abraça, conta as novidades. Mas não é a mesma coisa, parece que perdeu o encanto, a magia. E isso não quer dizer que seja bom ou não, porque mesmo sem o encanto, a cidade ainda mexe comigo. Eu volto para casa e me sinto deslocada. Volto mais nostálgica e menos feliz, depois passa.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Da necessidade de ser tia

Os brinquedos espalhados pelo quarto onde ele dormia, uma meia pequena demais entre as minhas meias e a marca da mãozinha dele na parede do meu quarto, são, hoje, a minha companhia. O jeito de, realmente, não esquecer ele – como se isso fosse possível. Sinto falta da voz, dos abraços apertados, dele me perturbando porque queria ver um vídeo no youtube ou por querer brincar de esconde-esconde. Gostava de chegar em casa – geralmente cansada, esgotada, depois de trabalhar e estudar – e ser indagada: “Tia, onde você tava?”. Parecia impaciente com a minha ausência.
Quando eu chego em casa, ninguém me pergunta nada...
Se me dissessem que meu coração viveria assim, mergulhado numa saudade que não se pode matar, que dói, talvez eu não tivesse me envolvido tanto. A verdade é que nós não podíamos ter nos separado. A distância deveria ter chego naturalmente, quando eu não pudesse mais carregar você no colo e apertar suas bochechas. Talvez nos distanciássemos na sua adolescência. Mas, agora, assim, você longe de supetão não é bom. Sinto saudade de ser tia, a sua tia.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Que bela sopa

Zoah brincava com a sopa de letrinha. Mesmo não distinguindo o A do B, ela sabia que ali havia um enigma. Então, punha-se a cutucar os macarrãozinhos, formando palavras inexistentes, mas dotadas de significado, para ela.
Ianzah, mãe de Zoah, incentivava-a. Aí a menina se perdia no universo letrado, brincava de pega pega com o substantivo, de esconde esconde com os adjetivos e de mímica com os verbos. Adorava falar do presente, passado e futuro. Contudo, era do gerúndio que ela gostava mais. Gerundiava sem parar, gerundiando.
Do alfabeto, gostava mais do Z e do S. Z porque era a letra inicial do seu nome e S, porque gostava de ser. Antes ser do que ter, pensava. Começou a juntar as letras. Construiu textos sem contextos, eram seus pensamentos atravessados, o dedo tentando acompanhar a cabeça que por inúmeras vezes não estava no lugar. Mais tarde entendeu que a sua loucura era poesia.
Produziu insanidades com o alfabeto inteiro. Largou as cantigas de roda e cantou suas próprias cantinas, que na verdade, eram cantigas quadradas. Zoah gostava de ser diferente, zoava do comum e caçoava da rotina. Sempre.
Ainda quando criança, dedicou-se às crônicas. Foi quando perdeu o dente e o deu para a fadinha. Zoah escreveu sobre perder aquilo que, naturalmente, pertencia-lhe. Depois da crônica vieram as história em quadrinhos, os contos de fadas, as fábulas e as rimas sem rima ou versos sem versos. Fez todos os gêneros. Era escrava da língua, da palavra escrita.
Plantou suas histórias. Eternizou-as no papel, entre letras e mais letras, uma vírgula, um ponto. Sinônimos e antônimos, variava. Era assim que ela se constituía. Apelidaram-na de escrevinhadora. Ela adotou para si tal designação, achava chique ser escrevinhadora, e seu ego mais ainda.
No fim da vida, as linhas do livro de Zoah estavam todas preenchidas. Imprimiram sua vida no dia em que ela viajou, seguindo para lá do céu, depois da curva do arco-íris, antes de chegar no sol, bem pertinho da lua. De vez em quando ela manda notícias, por escrito, claro.
O caderno de Zoah agora é o céu, ela escreve com as estrelas e, quando se empolga, com os cometas. Varia. Lá de cima ela ensina o seu neto, Sucuah, a brincar com a sopa de letrinha. Torce para o menino cutucar os macarrãozinhos.
Hoje é vizinha de Machado de Assis e Lima Barreto. Melhor amiga de Clarice Lispector e Raquel de Queiroz. Ela flerta com Vinícius e Mário Quintana, mas é do Drummond que ela gosta mais. Foi escrava da língua, da palavra escrita. Nada objetiva e incessantemente subjetiva.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ajuda do governo sim, e por que não?


Por esses dias recebi uma mensagem curiosa no twitter que dizia: “Feministas querem que governo incentive divisão de tarefas domésticas entre homem e mulher”. Na hora cliquei para ver a matéria na integra. Gostei.
Fui ver do que tratava, e, mais uma vez, adorei. Eu acho justo que os homens ajudem nas atividades domésticas. Oras bolas, por que eu tenho que trabalhar fora e em casa, e ele apenas fora? Sim senhor, se as mulheres possuem uma jornada tripla (trabalho+casa+filho – quando se tem), que os homens também possuam. Ajuda é fundamental e a divisão do serviço não mataria ninguém, apenas otimizaria o tempo dele e dela. Depois de tudo limpo, arrumado e bem cuidado, sobraria tempo para ele e para ela, para um livro, uma pelada, uma caminhada, um filme, um cochilo a dois. Simples.
Comentei sobre a matéria com umas três pessoas. Elas acharam extremamente estranho e desnecessário as mulheres pedirem ajuda ao governo para que os homens participassem mais da vida doméstica, para que o estado incentivasse a sociedade a repensar o papel do homem nas famílias brasileiras. Se o mundo está se transformando, se a mulher agora exerce outras funções que não só a de mãe e dona de casa, por que os homens não podem assumir outras responsabilidades? Sem guerra do sexo, sem sexismo. Não precisamos disso.
Pedir ajudar do governo não é o cúmulo, como alguns afirmaram. O governo é o meio pelo qual são lançadas campanhas contra o preconceito, estimulando a boa convivência entre os gêneros, entre o branco e o afrodescente, entre o que não possui necessidade especial e aquele que a tem. Então, por que não estimular a boa convivência entre as mulheres e os homens modernos? Por que, nós, todos, não repensarmos nos nossos papéis sociais?
Eu acho que é como a camisinha. Antes não se tinha propaganda, não se falava sobre métodos preventivos e nem se usava. Com a realidade modificada, aparecimento do HIV, discussões sobre a camisinha se tornaram necessárias. Daí as campanhas “sexo com camisinha” e o seu uso no nosso cotidiano. Talvez, com os homens, o procedimento seja o mesmo. Depois das campanhas, ele e ela estarão trabalhando juntos. Ela lavando a louça e ele trocando a frauda. Pode ser o contrário também. Vai demorar, a conquista será em longo prazo, porém, agora é a hora de começar. Prontos?

Obs: Minha avó com seus 68 anos de idade está cansada. Reclamou de uma propaganda de refil para patente de banheiro. Uma que o cara grita: “Querida, precisa trocar o refil”, daí a mulher chega com roupa de mergulho para trocar o bendito. Não lembro a marca. Mas, enfim, achei engraçado a minha avó reclamar da propaganda, intitulando-a de machista. “Por que sempre a mulher que tem que limpar o banheiro? Eu acho que ele tinha que dizer: Querida vou trocar o refil”, disse a minha vó. Bati palmas para ela, ao mesmo tempo que constatei o quanto ela se incomoda de ser, apenas, a dona de casa. Ah, que fique claro, meu avô, 72 anos, além de trabalhar fora, lava a louça e limpa a calçada. Lindo, assim.