quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A queda do palco poderia ser a do preconceito

“O Brasil tem esse lado cor de rosa, a maior parada gay do mundo, a maior associação de gays, lésbicas e transgêneros da América do Sul. E tem o lado vermelho-sangue: a cada dois dias, um gay é assassinado.” Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia

Foi hoje, o palco caiu e junto com ele o Governador do Estado, Roberto Requião, que sofreu uma luxação no pé esquerdo, mas passa bem. Nenhum outro arranhão, nada grave. O fato ocorreu na solenidade de entrega de ônibus - daqueles que ele tem distribuídos aos montes - na cidade de Paiçandu, no noroeste do Estado. A queda do palco poderia ser a do preconceito, mas, uma pena, não foi.
Na semana passada nosso queridíssimo chefe de Estado mostrou, mais uma vez, a sua intensa (ou será extensa?) ignorância, ao dizer que o câncer de mama nos homens pode ter aumentado devido às passeatas gays: “A ação do governo não é só em defesa do interesse público. É da saúde da mulher também. Embora hoje o câncer de mama seja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatas gay", disse ele, ao anunciar as ações para o controle da doença no Estado. Pronunciamento infeliz, triste, tristemente.
Com os pés fincados no século 21, nosso País, ainda, teima em cavalgar à moda Idade Média e o tio Requião é apenas mais um destes típicos cavaleiros medievais. De acordo com a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travesti e Transexuais (ABGLT), o Brasil, mesmo tendo a maior parada gay do mundo, a de São Paulo, é o País que mais mata homossexuais no planeta. No ano passado foram registrados 190 assassinatos, um a cada dois dias, superando a média de 2007, ano em que houve 122 homicídios. Este ano, só no Paraná foram mortos 19 gays e travestis.
Campeão mundial em crimes de homofobia, o Brasil, quando comparado com os países prata e bronze, ganha em disparada no quesito ignorância. Em segundo lugar está o México com 35 assassinatos anuais (aqui são 190) e em terceiro lugar, bronze ignorância, nosso Tio Sam, os E.U.A., com 25 crimes por ano (aqui são 190).
A sociedade do livre arbítrio, por ora, não sabe lidar com o diferente, embora propague aos quatro ventos que sim: ‘viva as diferenças’. Mais de 3 milhões de pessoas vão à parada gay de São Paulo e o Brasil foi a primeira nação que realizou a primeira conferência GLBT do mundo, além de ter o primeiro presidente que apresentou um programa nacional para os gays. Quais são os frutos disto? Um arco-íris de hipocrisia. É o preconceito enrustido, expresso nos números de assassinatos de homossexuais que é crescente ano a ano. As estatísticas são altas e declarações como a de Requião só fomentam o preconceito, a discriminação e a violência à classe...Alguém aceita mamonas de sobremesa?



3 comentários:

  1. Lari, li todos seus textos nesta página. Nem que eu quisesse, conseguiria escrever tão bem quanto você.
    É bom saber que a Universidade onde me formei revelou um grande talento da literatura, hehe.
    Parabéns querida.

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  2. A "comunidade gay" tem força. Cuidado com as palavras, caro governador.

    Amei, amiga.

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Porque quem comunica se trumbica.