quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

27 janeiros

Mandela ficou 27 anos preso. É muito tempo! Uma vida, a minha vida. E falando assim, em 27 anos de idade, nem parecem muito. Vinte sete anos. Vin-te se-te, ainda mais próxima dos 30. Existem listas do que se fazer antes dos 30 anos e eu ainda não fiz a minha, embora tenha em mente alguns itens. O medo de parte deles ficar só na vontade é grande, por isso o temor a cada aniversário. Daí, um friozinho na barriga, como esses que dão de andar de montanha-russa, acompanha-me durante o dia do meu nascimento. O friozinho é abafado com a sensação gostosa de mais um ano de vida. É a estreia da nova idade a ser pronunciada. E toda estreia é especial. Quantos anos você tem? Vinte sete anos! Soa tão natural, mesmo que alguns se assustem. Feliz ano novo, para mim.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

2011/2012

Amigo secreto, presentes para a mãe, irmão, sobrinho. Panetone no café da manhã, árvore de Natal na sala. A saudade quase cessada com a gente que vem chegando de carro, ônibus, avião. Uma alegria tímida, querendo explodir na virada do ano. Uma retrospectiva mental . Uns projetos concluídos, outros em desenvolvimento e alguns nem no ínicio. Listinha de realizações para o novo ano. E você aqui, mesmo sem saber seu paradeiro. Suspeito do céu. E, sem querer, lembro da partida. Ainda dói 2011 em mim, por você. E dá frio na barriga, por 2012.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Prece

Pouco, mas o suficiente para querer que permaneça por um período longo. Quiçá interminável. De olhar para frente e desejar a sua mão na minha. De acordar já pensando em você e repetir o pensamento à noite. Rir a dois é melhor, de doer a barriga e pedir figa. Fico boba. E até duvido que você exista. Belisco. É de verdade, respirando numa frequência irresistível. Além do encaixe em mim. Que os trinta dias sejam apenas uma prévia do bem que você me faz.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Mentirinha

Quando a moça bonita se aproximou, não imaginava que a convidaria para um almoço no restaurante do outro lado da rua. Surpreendeu-se com a atitude. Há anos estendia a mão naquela esquina e nunca havia recebido tal convite. Talvez as rugas a tivessem ajudado. A piedade é maior para velhinhas que mendigam, concluiu. Enquanto atravessavam a rua, a moça bonita se explicava. Disse que ela lembrava a avó, que morreu há pouco tempo. É o mesmo tom de pele, o mesmo cabelinho cinza escondido num coque!, contava a moça bonita toda empolgada. A velha mendiga apenas sorria, sem jeito, sem responder nada. Refletida na janela do restaurante, hesitou em entrar. O reflexo lhe mostrava tantas coisas, inclusive que não era apta para o ambiente onde a levavam. A saia bege que descia até a canela tinha uns furinhos que, por mais que fossem remendados, insistiam em aparecer. Bege quase branca que contrastava com a blusa de lã pink, que lhe foi doada recentemente. Mas o que mais a incomodou mesmo não foi a roupa, mas a falta de um sapato fechado. O chinelo de dedo não escondia suas unhas sujas, de quem passa horas e horas caminhando pelas ruas. Num vai e vem curto, mas sem fim. Como ontem tinha chovido, debaixo das unhas ficou terra. Até esfregou quando chegou em casa, mas por não ter a força de outrora, não conseguiu tirar toda a sujeira. E o tempo não foi bondoso com ela, as rugas na sua face indicavam muito mais idade do que realmente tinha. Tímida, deu um passo para trás. Mas a moça bonita, num gesto natural, sugerindo apoio e compreensão, pegou-a pelo braço. Entraram juntas no restaurante. Durante o almoço, a moça bonita a entupiu de perguntas, além de comida, claro. A velha mendiga contou que morava distante, quase fora da cidade. Cuidava dos netos, cinco. Porque a filha tinha morrido. Depois que viuvou e sem forças para continuar na fábrica onde trabalhou por anos e anos, foi para as ruas. Fixou-se na esquina e a apontou da janela do restaurante. Seu trabalho não lhe trazia muito orgulho. Estender a mão à espera de esmola nunca esteve em seus planos. Mas aceitou o destino, visto que não tinha muitas alternativas. A moça bonita se disse sentida. Contudo, achou muito digna a velha mendiga que cuidava de metade de uma dezena de netos. Não devia ser fácil, pensava. Entristeceu-se. A velha mendiga, ao se despedir, rezou para moça bonita nunca descobrir a verdade. Pois a vida que tivera era muito mais triste do que contara. Preferia mentir sua história a pronunciá-la ou mesmo escutá-la. Posicionou-se na esquina, estendeu a mão. Ali, embora com certa vergonha, sentia-se melhor.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A caneta.

Eu estava lendo o livro, concentrada. Enquanto ele me rodeava, pedindo atenção. Atenção que eu negava. Até que ele me perguntou sobre o que era o livro. Numa tentativa desesperada de garantir a atenção, ele se mostrou interessado na minha leitura, aos quatro anos de idade! Eu disse que era livro de adulto. E ele continuou perguntando. Quem estava dentro do livro? O que acontecia? Foi chegando mais perto. Cercou-me. Sentou do meu lado. Com os dedinhos ia indicando palavras e perguntando o que elas significavam. Eu não resisti. Peguei a caneta marca texto, girei minhas mãos, transformei-me numa feiticeira e o transportei para dentro da obra. Enzo Gabriel, cara de pastel, eu quero você dentro desse livro de papel! O sorriso dele foi de orelha à orelha. Ele me pediu socorro, disse que tinha muito adulto dentro do livro, que as palavras estavam o afogando e que a vírgula queria matá-lo. Eu virava as páginas e ele virava junto. E a cada página virada, uma viagem. Uma nova aventura. Até que ameacei fechar o livro. Tia não! Se você fechar, eu fico aqui dentlo para semple. O rosto assustado indicava a angustia dele. Para sempre é muito tempo. Tá, sai daí Enzo. Ele sai faceiro, toma a caneta das minhas mãos e transforma coisas em sapos, gente em monstros. Há duas semanas que não encontro minha caneta...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Escolha

Partir parecia tão fácil, uma alternativa madura e ao mesmo tempo divertida. Ares novos, pessoas novas. Eu gosto disso. Mas eu também gosto de rotina. Como uma boa capricorniana, eu sou sistemática e gosto de me sentir confortável num ambiente onde eu já conheço todos. E todos são tão bons. E eu penso em cada rosto que eu vou deixar de ver, em cada espaço que vai ficar nos abraços, em cada palavra que não vou escutar mais. “Tia” é elogio e ouvir por telefone não será a mesma coisa. Lidar com a saudade é penoso para mim, sempre foi. Acho que é por isso que, de uma maneira ou de outra, sempre trago quem eu gosto para perto. Ninguém entende o motivo de eu ficar. Às vezes nem eu. Eu estava preparada para partir a qualquer momento, mas agora a decisão pesa. O coerente é eu ir, sim, eu sei. E eu sempre faço o que é coerente, não é mesmo? Mas, a minha vontade é ficar. Aqui tem uma lista sem fim de prós. Lá? Tem, mas eu finjo que não tem. Aqui. Aqui fala tão forte em mim.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Coisa de adulto




A gente pede uma porta e o que abre é uma janela, com vista para um lugar bem diferente daquele que imaginamos. E diante da porta ainda trancada, fica a dúvida: pular pela janela ou girar a maçaneta? A gente até gira a maçaneta, mas a porta está chaveada. Então, olhamos pela janela, analisando a vista. Pode ser que não seja tão ruim. Nem o lugar e, quiçá, nem as pessoas. A gente respira fundo, suporta o frio que dá na barriga e que sobe seco dando nó na garganta. E reza, para que tudo dê certo. Porque é assim que adulto vive. De renúncias, dúvidas e apenas uma certeza. Somos aquilos que esolhemos ou, por vezes, aquilo que nos é permitido ser por um momento.