sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Bicho-papão
Eu assusto os moços mais jovens. Eles, normalmente, acham que eu tenho entre 19 e 23 anos. 19 anos! Então, começa o diálogo. Jornalista formada. Recém-formada? Não, graduada há 4 anos, praticamente. Sou tia também. Buh! Susto. É engraçado. Os homens se intimidam com mulheres mais velhas. Eu acho graça. Só ainda não descobri se é vantagem ou não ter imã para calouros. Nada contra moços mais novos, que fique claro. Com os mais velhos acontece algo parecido. O problema com esses é um pouco mais agudo, porque as conversas que utilizam para a aproximação são limitadas. Destinadas às garotas de 15 anos. E eu aprecio bom papo. Eu tenho 26 anos. Nossa, jurava que era bem menos. Pois é. Aí até adequar a conversa à idade apropriada, foi-se a chance de haver interesse. Porque eu desanimo fácil. E eles também. A minha idade me complica. E eu me complico, mais ainda.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Cheirosinho
O vento intrometido passou pela fresta da janela e fez arrepiar os poucos cabelos que lhe restaram. Estava sentado na poltrona da sala cheia de filhos, netos e bisnetos, quando o vento, além de movimentar os fios de cabelos, levou sua fragrância a quem estava por perto. Mas antes mesmo da brisa, a família já tinha percebido o perfume. Elogiaram. Ele, tímido e ainda sem jeito, agradeceu com um riso sem graça.
Há anos não usava uma colônia e por isso as borrifadas que deu sobre o pescoço deixavam-no, embora cheiroso, desconfortável. Por um momento até achou que tivesse escutado um espirro, mas não. Ninguém espirrou. Queria mesmo era ter escutado um espirro, daqueles bem fininhos, curtinhos. Atchim! Era assim que a esposa reagiria. E escutar um espirro que não existiu o reportou para o primeiro encontro, quando pôde chegar pertinho dela.
Ela, de uma beleza singular. De nariz arrebitado, que rimava com o resto do rosto perfeitamente emoldurado pelos cabelos negros ondulados que lhe caíam até a altura dos ombros. Seduzido, quis chegar mais perto ainda da moça que não o deixava mais dormir. E foi por chegar mais perto e querê-la por perto que abandonou o uso de colônias. Ela era alérgica a qualquer cheiro, dos cítricos aos doces, dos amadeirados aos florais.
Não teve outro jeito se não abandonar os frascos, até o mais minúsculo que, à época, custou-lhe quase todas as suas economias de um ano. Se hoje estava perfumado, era porque a mulher não estava mais ao seu lado. Até que a morte os separe. Foi só assim que ficou longe da amada. No dia seguinte, deixou a fragrância de lado para não escutar espirros.
Há anos não usava uma colônia e por isso as borrifadas que deu sobre o pescoço deixavam-no, embora cheiroso, desconfortável. Por um momento até achou que tivesse escutado um espirro, mas não. Ninguém espirrou. Queria mesmo era ter escutado um espirro, daqueles bem fininhos, curtinhos. Atchim! Era assim que a esposa reagiria. E escutar um espirro que não existiu o reportou para o primeiro encontro, quando pôde chegar pertinho dela.
Ela, de uma beleza singular. De nariz arrebitado, que rimava com o resto do rosto perfeitamente emoldurado pelos cabelos negros ondulados que lhe caíam até a altura dos ombros. Seduzido, quis chegar mais perto ainda da moça que não o deixava mais dormir. E foi por chegar mais perto e querê-la por perto que abandonou o uso de colônias. Ela era alérgica a qualquer cheiro, dos cítricos aos doces, dos amadeirados aos florais.
Não teve outro jeito se não abandonar os frascos, até o mais minúsculo que, à época, custou-lhe quase todas as suas economias de um ano. Se hoje estava perfumado, era porque a mulher não estava mais ao seu lado. Até que a morte os separe. Foi só assim que ficou longe da amada. No dia seguinte, deixou a fragrância de lado para não escutar espirros.
sábado, 6 de agosto de 2011
A fruta nunca cai longe do pé
Eu tão dona da razão, você tão dona do coração. Eu, um vulcão em erupção. Você, um mar sem onda. Você, a paciência que nunca tive. Eu, o imediatismo (aquela coisa de sem rodeios e de preferência já – agora) que você dispensa. Será efeito de nossas épocas? Pois é, até nisso a gente não combina. Nossa diferença de quase 30 anos de idade colabora para que pensemos de maneira tão oposta. E nessa coisa de sermos tão avessas, a gente se preocupa demasiadamente. Eu com você e você comigo. Você questiona as minhas escolhas, eu não entendo as suas. Daí que a gente se preocupa, que a gente coça a cabeça, coloca a mão no queixo. Depois desses movimentos de quem busca comprensão, o silêncio. Uma olha para outra. Você tenta se encontrar em mim e eu em você. Alguma coisa temos em comum. Temos de ter! Mas a gente ainda não achou essa parte em comum. A semelhança externa a gente vê todo dia. Eu vejo você no espelho e você me vê no seu espelho. Quiçá seja isso. Eu uma parte adormecida de você, aquilo que você nunca foi por algum motivo. E você uma parte do que eu ainda vou ser, por algum motivo.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Microcrônica de comercial de margarida
Todo mundo em volta da mesa e ele me diz, sussurrando, como quem conta um segredo, escondendo a boca com as mãos: “Pirata”. Era para passar para frente. Passo para meu avô, que passa para a minha mãe, que passa para minha cunhada. “Cadê meu pai?” (Está se arrumando para aula). Telefone sem fio. Entre uma mordida no pão francês e o gole do café, a gente sussurra as palavras dele no ouvido do outro. Elefante, Pipoca, Carrinho, Huck. O café de fim de tarde e quase noite, a nossa janta, fica com gosto de filme de final feliz*.
*É, eu sei. Sou tia babona.
*É, eu sei. Sou tia babona.
domingo, 31 de julho de 2011
Desaparecido
O poste estava cheio de papel. Quase não era mais poste, mas uma espécie de outdoor barato ao alcance de qualquer olho. Do mais atento ao mais preguiçoso. Bastava não ter olhos tão baixos, desses que se escondem mirando o chão, para dar de cara com os anúncios. Sexo por mixaria. Procura-se cachorro. Desaparecido. Perca peso, fale comigo. Vejo o futuro. Não tinha nenhuma novidade. Todo dia era assim. Ao aguardar o ônibus para voltar para casa tinha a mania de fitar o poste. De longe, lia todos os bilhetinhos fixados. Pegou essa mania depois que viu a mãe do desaparecido colocando o cartaz que anunciava o sumiço. Deu dó da mulher que, em meio às lágrimas e já encurvada como quem faz força para se manter em pé, fixava a folha de papel sulfite no poste. E nem precisou olhar a face da mãe para notar sua aflição. O ambiente ficou carregado e quem presenciou a colagem do cartaz se incomodou. Só tinha três aninhos o filho. Há quatro meses, desde que viu a mãe do desaparecido, imaginava as histórias por trás dos anúncios. E toda vez que mirava o poste, fantasiava. Deu nome para o cachorro: Tobi, que fugiu porque quis. Não queria donos nem nome fofo. Simples, fugiu. Era um cachorro de madame metido a ser vira-lata. Se não foi atropelado, deu sorte! Para as profissionais do sexo, uma vida bandida. Todas bandidas, imaginava. Tão bandidas quanto acabadas. Só podia. O valor era muito baixo para o prazer que afirmavam proporcionar. Imaginava-as pelancudas e fedidas. Ou quase esqueléticas e fedidas. Não sabia porquê, mas o sexo por mixaria não lhe cheirava muito bem. Seria preconceito? Perguntou-se, mas não se deu ao trabalho de responder. Pulava para o outro cartaz. O que falava sobre peso era com certeza de um ex-gordo. Absoluta certeza. Um ex-gordo que ajudava gordos e gordas a ficarem magros e com isso ele ficava rico. Era um bom empreendimento, ainda mais com essa neura de magreza.A cigana que via o futuro? De fato era uma cigana! Um luxo! Abaixo do “Vejo o futuro” tinha “Amarro o amor”. Mandigas de amor existem desde que o mundo é mundo. E essa coisa esotérica é curiosa. Tão curiosa quanto perigosa. Mexer com o lado de lá pode não ser tão vantajoso. Sem nunca ter visto a tal da mulher que jogava búzios e tarô, apostava que era uma charlatona. Algo lhe dizia que era uma tiazona - bonita até - que não tinha amarrado o grande amor de sua vida e que, de verdade, não amarrava nada. Nadinha. Quanta bobagem!, disse a si mesma depois de ser interrompida pelo barulho do ônibus. Despedia-se do poste e dos pensamentos que o mesmo a acometia quando subia os degraus do transporte coletivo. Sentada no banco, durante o percurso, rezava para o menino desaparecido.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
O dedo do pé de Amanda
Deixou Amadeu por causa do nome. Amadeu é feio né? E juntos, Amanda e Amadeu, pareciam dupla sertaneja. Não gostou. Mudou de estilo, namorou Maykon Diéquison. Não o deixou pelo nome, mas porque tinha uma mãe que era macumbeira. Diziam que a ex-sogra acendia velas e oferecia comida aos espíritos. Achou estranho, e como acredita que essa coisa de espiritualidade é herança, não quis deixá-la para seus filhos – mesmo sem nunca ter pensado em tê-los com Maykon. Em seguida, apaixonou-se por Bem. Bem que era bem até no nome. Deu para suspirar sozinha. Quase que vingou com Bem, se ele não tivesse o irritante costume de não levantar a tampa do vaso sanitário. Aturou por pouco tempo esse descaso. Partiu. E durante a partida conheceu Vinícius. Mas, assim que chegou mais perto e notou que sua sobrancelha parecia uma taturana perto da dele, desistiu de súbito. Assim como desistiu de Leo, porque só falava de sexo, e de Francisco, porque só falava de amor. O problema do Rafael foi o gesto repetitivo que fazia enquanto comia. No começo até achava graça, mas a graça acabou. Gamou em Frederico, aceitou o chulé dele. Numa manhã de primavera, antes que completassem três verões juntos, Frederico foi incisivo: Amanda, não suporto mais viver com você. O tamanho do seu dedo do pé, o do lado do dedão, é insuportavelmente desproporcional. Amanda chorou.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Ele só queria filme, pipoca e coca-cola
Imediatamente colocou a mão na testa e engoliu seca a saliva que desceu enroscada. Infiltrou-se em rodas de desconhecidos na tentativa de fugir de quem entrava pela porta. Roubou copos plásticos gigantescos da mão alheia e tomou goles sem saber o que bebia. Virou de costas toda hora que achava conveniente, para o lado esquerdo quando achava que estava perto demais, para o direito quando não tinha alternativa. Evitava a frente. A situação o deixou tenso, sem aproveitar a música que tocava, a bebida oferecida e os amigos que riam. Um dos desvios não deu certo. Flagrante. Coçou o olho, esticou os braços. Estava em casa e era só sonho, não teve que se esconder. Ao se ajeitar na cama para mergulhar em sono novamente notou um corpo a mais. Houve a fuga. Só não deu certo.
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