quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Vi-ra-da

Diz que o Ano Novo, de verdade, acontece quando a gente quiser. Pode ser no começo do ano, no meio ou no fim. Independe de data, da cronologia. Mas eu preciso da virada, do dia 31 de dezembro para o dia 01 de janeiro. É nesse intervalo de tempo, entre o ano que se despede para o ano que nasce, que eu ganho gás. Para mudanças, para novos planos. Também, esse marco, é um momento de retrospectiva. De lembrar as perdas e os ganhos do ano que está acabando. De, mentalmente, fotografar os melhores momentos. Os melhores abraços, os melhores sorrisos. De visitar dores, de um mal entendido, de uma briga, de um arrependimento, de uma perda. Duas perdas. É a tentativa, quase sempre falha, de compreender o incompreensível. De divagar em mim mesma, refazendo os caminhos e rostos que passaram durante o ano, por mim. Para mim. Oração. Mais uma oração, duas, três. Eu rezo, para que o ano inicie bem. Que o durante seja bom e que o ciclo se conclua com mais prós do que contras. É quase meia noite. Uma pitada de medo com alegria. São os fogos e a energia única que só o Ano Novo, do calendário, tem. Feliz Ano Novo!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Capítulo 1

Ai. O sussurro curto e baixo marcou a primeira vez. Estava leve, com o olhar de quem não está onde de fato se encontra. E enquanto o namorado se atentava ao preservativo, ela prestava atenção ao ambiente que parecia vibrar, depois das pernas não mais bambas. Ainda nua, reparou no lençol, que nem estava sujo, como disseram a ela que ficaria. Também ninguém fumou, porque, claro, nem um e outro apreciavam o cigarro. E ele não dormiu, como previu a maioria. Após o gozo, deitaram juntos, respirando fundo. Ou era o silêncio que fazia parecer que ambos respiram fundo. Ele, então, ligou a TV e buscou alguma coisa para assistir, ficou pulando de um canal para o outro. E de um canal para o outro ela ia montando a cena da qual acabara de ser protagonista. Quis tomar o controle da mão do namorado e o convidar para a próxima cena. Conteve-se. Ainda era preciso decorar alguns capítulos...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Grande Dia

Ele gargalhou no primeiro encontro. Foi depois de escutá-lo rindo (uma das risadas mais gostosas que já escutei) que me senti presenteada pela vida, por tê-lo por perto. E gostei, logo de cara, do encontro – que mal havia iniciado. Como o enredo da peça de teatro era uma comédia, era inevitável o riso, de ambos. De todo o público. Mas o dele era especial. Destacava-se no meio da plateia. O que, por vezes, me fazia rir mais ainda, porque, além da peça, eu podia gargalhar da risada dele. Doeu minha barriga e eu desejei aquela risada para mim. Que viessem muitas outras. E foi por causa da gargalhada (e não por ele ser um moreno alto, bonito e sensual) e do ambiente em que estávamos (naquele primeiro dia de nós dois juntos) que eu pensei que poderia passar o resto dos meus dias com ele. E, desde então, a vontade só aumenta.

sábado, 20 de outubro de 2012

Francisco e Tereza

Chamam-se de amor. Amor para lá, amor para cá. Amor com bom dia, boa tarde e boa noite. Mas sem diálogo. Amor de dividir as refeições e garrafa de vinho, como se não estivessem na mesma mesa, incomodados com o silêncio ininterrupto produzido somente por pessoas que já se conheceram, mas que se perderam uma da outra. Amor de ver filme juntos mas separados. De intimidades, de usar o mesmo banheiro com a porta aberta e de tirar a roupa sem fazer carícias. Amor de dormir juntos, nunca de conchinha. Amor de retratos espalhados pela sala, nas paredes do corredor. De pose. Amor registrado em cartório, confirmado na igreja e atestado com os filhos. Mas sem resquícios no dia a dia.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Preciosidade

Toda manhã, quando escovava os dentes, aproveitava para espiar o ‘namorido’ pelo espelho do banheiro. No momento que o encarava escondida, ele dormia profundamente, esparramado pela cama, ocupando o espaço que até então ela estava. Mirou o relógio para ver se ainda dava tempo de tomar o café. Tranquilo. Aos pés dela, ainda descalços, Chocolate, o cachorro. Cuspiu a pasta e mandou que Chocolate fosse para ‘caminha’. Esquentou o leite no microondas e tomou uma xícara. Terninho, brincos e pulseiras. Vestiu o sapato. Uma maquiagem básica feita no espelho do corredor. Voltou para trás e centralizou o porta-retrato com a foto do abraço triplo (dela, da mãe e da irmã). Cuidadosamente, para evitar barulho, fechou a porta do apartamento e deu três giradas na chave. Fechou os olhos e respirou fundo. Satisfação! Felicidade é mesmo coisa simples, certificou-se.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Silêncio gostoso

Parece cócegas! Dessas que mexem com o corpo inteiro e que se desmancham em riso. Riso expressivo, que deixa os olhos pequenininhos, porque a boca sorri largo, como que querendo alcançar as orelhas. Às vezes parece um “plim”. “`Plim” que dá da cabeça até o dedão do pé. E tem ocasiões que é como andar nas nuvens, uma paz, uma leveza. Em certos momentos, arde. Queima a alma até suar o corpo ou o corpo queima até suar a alma? Diante de tantas sensações, por vezes simultâneas, eu me calo. Não encontro o vocabulário adequado. Mas não importa. Porque até no silêncio você está comigo. E me salva, de várias formas.

domingo, 4 de março de 2012

Tudo alinhado, demais.

Nenhuma almofada fora do lugar. A vermelha ao lado da amarela que está do lado da marrom, seguida de mais uma vermelha. Todas no centro do sofá de canto. No chão, o brilho chama a atenção. Sobre a mesa de jantar, apenas o vaso com as flores. Não há cadernos, chaves, revistas ou mesmo cartas, que antes eram deixados pela mesa, fazendo-a parecer muito mais um móvel de escritório do que uma mobília de sala de jantar. Ao lado da porta de entrada, perto do tapete, nenhum sapato. Ainda se tira o calçado para entrar em casa, mas ninguém mais o deixa fora da sapateira. Casa limpa e arrumada, sinônimo de ausência e silêncio. Foi até a sapateira, pegou uns calçados e os deixou no pé da porta. Depois, espalhou papéis dos mais diversos sobre a mesa. Também jogou uma almofada no chão e desalinhou as demais, que ficaram perdidas uma das outras no sofá. Disfarçava a saudade, simulando a bagunça de outrora.