domingo, 23 de maio de 2010

A velha albina

O império de edifícios é bonito, mas polui a vista. São prédios e prédios e prédios. Mais prédios. As casas foram engolidas. E o comércio também reina. São bares, lanchonetes, lojas dos mais variados artigos. Vendedores ambulantes de fruta, biscoito de polvilho, bala, chicletes e quinquilharias. Nada orna, mas tudo junto e misturado até que possuem certa beleza, escondida, mas há.
Outra coisa chata da grande metrópole é a neurose. A preocupação constante que se deve ter com as bolsas, com a carteira, com o celular. O desassossego é de todos, até as pombas gordas são inquietas. Atentas, planejam a cada segundo um voo certeiro. É nesses voos que elas roubam a comida, que pode estar na mão, na mesa do bar, no chão. Até pomba rouba em cidade grande. Deveria haver um genocídio de pombas, pensa.
Gosta de andar de metrô, coisa de caipira. Mas, gosta. Foi na saída do metrô que encontrou a velha albina, que repousava na mureta da escada. Por dois dias seguidos a velha estava lá, parecia até fazer parte da decoração da calçada. Quase que não se mexia, dava até a entender que era estátua. Uma estátua macabra, de mau gosto, mas estátua. Era estranho se deparar com a velha albina, a falta de melanina causa estranhamento. O olho rosado choca, talvez por isso os albinos tivessem parte com o demo, era assim que pensavam na idade média.
Cabelos curtos e ralos alterando da cor branca à amarela. Saia e blusa de cores neutras para não contrastar com a falta de cor da pele, enrugadíssima. Com a mesma roupa, na mesma pose. Quase mendiga, era mais certo que fosse. A velha albina provoca quem por ela passa, provoca sem dizer nada, sem mostrar nada. Provoca com seus movimentos suaves. Parece louca. Uma insana, somente uma idosa insana sentaria na mureta, permanecendo estática na maior parte do tempo, enquanto zilhões de pernas passam por ali.
A velha albina pode não ter mais memória boa, deve embaralhar-se. Linearidade já não deve fazer parte da sua cabeça, deve ter flash back constantes, pode não ter família, pode ter sido esquecida. Vive no passado. Não sabe quem é. De fato.
Resolve ignorar a velha da mureta, porque depois dela tem o menino descalço com os dentes podres pedindo esmola, tem o negro fedido dormindo junto com três cachorros sarnentos, tem dois jovens fazendo a refeição no lixo, catando o que sobrou do almoço de alguém. Caraca, tem um pedaço de bife aqui. Vibram. Ainda, depois deles têm as putas da esquina, do meio da rua, da quadra inteira. Tem policial batendo em gente decente, homens armados com fuzil, que ninguém sabe se vai ser usado para o bem ou para o mal. Um dia na cidade grande.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Para as enroladas se desenrolarem

Desejei, por muito tempo, que o tal do amor fosse explicado numa fórmula matemática. De forma clara e objetiva. Ou podia ser também sentido como se sente os poemas. De verso em verso, uma sensação. Mas, o amor não é simples assim, gosta de ser complicado. Assim, um mais um nunca são dois. Assim, é multifacetado. Para senti-lo, sente de tudo. Até doer demais. Quando dói demais, é a hora de partir, de trocar de amor*. Permita-se. E abafa o insuportável mau cheiro da memória - como Drummond aconselhou.

*Bom seria se existisse um liquido, desses que se encomenda a quem tem parte com o diabo ou parte com o céu. Feita a encomenda, o liquido seria doado aos conhecidos que sofrem de amor, principalmente às amigas que não possuem talento algum para amar (e desamar também).

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ao meu pedaço de céu

Quando pequena, lembro de me esconder por entre suas pernas. Tímida, meus pequenos braços entrelaçavam suas coxas quando visitávamos parentes ou íamos a festas. Desde novinha escutei dos outros a nossa semelhança. Hoje, nossa similaridade aumentou, somos mais parecidas. Mais mãe, mais filha.
Da infância para adolescência, da adolescência para a maturidade. Em todas as fases a necessidade de uma absorver a presença da outra foi/é recíproca. Por isso a saudade doía tanto na época da faculdade, quando quilômetros nos separavam. A falta que uma sentia da outra era suprimida às vezes. A grana era curta o que dificultava as visitas não programadas, então, limitávamo-nos aos telefonemas, aos e-mails, às mensagens no celular. Minha mãe conseguiu o que pouquíssimas pessoas conseguem: era presente mesmo ausente.
Quando os ventos do destino me visitaram e me sopraram de novo para casa, varreram para longe a saudade que nos corroía. De volta ao lar doce lar, onde me encontro, desfruto da companhia dela. Todo dia.
Dividimos segredos, delírios, dissabores, sorrisos e, principalmente, o peso dos problemas – um tanto para mim e outro para ela. Minha mãe, como tal, faz coisas típicas de mãe: planeja minuciosamente o almoço de domingo, pois gosta da família reunida em torno da mesa, comendo, bebendo, rindo e falando alto; reza para eu arrumar namorado; torce para eu ser sucesso profissional e me dá mil e um conselhos quando pego a mala para viajar.
Talvez a cumplicidade seja a palavra mais adequada para traduzir a nossa relação, que é recheada de muito amor e uma dosagem extra de paciência – utilizada nos nossos momentos de desentendimento. Ela me chama de teimosa e eu disparo mil críticas. Passa. Dessas brigas raras, vem a certeza de que fomos feitas uma para outra.
Aos 25 anos não me escondo mais por entre suas pernas, porém ela continua sendo meu refugio. É no seu cheiro que encontro a tranquilidade e o aconchego. É quando inalo o seu perfume , aquele que só os (poucos) filhos identificam, que o meu mundo fica mais azul. Minha mãe, minha vida.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Procura-se

Homem que queira tomar posse de morena, nem alta e nem sensual – apenas morena, contudo, talvez, seja a solução para o seu problema (quem sabe?). Preferência por morenos barbudos, com mais de 25 anos (espécie em extinção). Que goste de não fazer nada a dois, de conversas prolongadas, de fins de semana preguiçosos e programas não high society (cinema em casa, andar de bicicleta, uma pizza, um barzinho, passeios de mãos dadas, voltas ao redor da quadra).
Recusa-se homem grosseiro, pessimista e preconceituoso. O indivíduo deve ser dotado de grande quantidade de paciência – para os dias de crise; um tanto notável de inspiração - para que o romantismo não seja clichê; e uma pitada de loucura – para acompanhar possíveis devaneios. Tem de ser simples. O essencial é que tenha o dom de deixar o dia feliz, mesmo com o céu cinza. Promete-se recompensa para os que o encontrarem.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Da loucura à vanguarda

Zoá era um emaranhado de ideias, eram tantos planos, tantos desejos e uma imensidão de projetos de vidas, que ela se perdia em si mesma.
Passava horas viajando em sua estrada sem trilha, sem roteiro. De vez em quando tentava usar a bússola, que escondia no bolso, com o intuito de se encontrar de novo, mas não adiantava. Ela continuava saboreando aquele mundo mágico, no qual as flores tinham cheiro de sapato novo e por onde as borboletas, em perfeita sintonia, dançavam as partituras de Bethoven, de Bach e depois Mozart.
Não queria sair de si. Encantada com seu mundo introspectivo, deixava-se carregar pelas ondas de poesia, corria por entre as palavras cruzadas. Brincava de forca, para depois se deitar à sombra do gigante, aquele que mandava no reino das coisas escritas. Zangava-se com as letras, partia para os números. Contava sem parar, multiplicava horrores. No fim, os resultados eram sempre positivos, mesmo não ganhando nada no seu cassino imaginário. Longe dali, mas ainda no interior, entre seus rins, Zoá caducava. Pensava em posar nua, em ser protagonista de exposição artística e cineasta falida – dessas que de produções independentes.
Na tentativa de acompanhar seu raciocínio, perdia a razão. Era só faz de conta. E quando a mãe chamava a atenção da menina, Zoá desviava o olhar. Evitava que a vissem sonhar. Tinha vergonha de suas ideias infundadas, de seus planos não conclusos e desejos travessos. Era tímida para expor seus projetos de vidas. Temia ser tachada de insana. No futuro a denominaram de vanguarda.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A um passo da perfeição

Foi assim, de supetão. Ela disse que das pessoas que conhecia, ele era aquele que mais beirava a perfeição. Elogio singelo, direto, sincero.
Assustou-se com o adjetivo perfeito. Perfeito, era perfeito demais. Logo, ele, assim, tão comum, tão banal. Mais um cara perdido, mais um que se deixa carregar pelo destino. Ele, assim, bem sem jeito, nada sexy, totalmente desprovido do patrimônio erótico tão na moda. Ele, assim, na maior parte do tempo tímido, calado. Perto, quase íntimo, da perfeição.
Pensou o que o faria tão completo. Não encontrou tantas qualidades dentro de si. De frente para o espelho, menos ainda. Não era feio, mas tão bonito também não era. Andava com a barba sempre por fazer, vestia-se com certo desdenho – mas isso até ele achava charmoso. Quiçá era o charme, pensou. Também atribuiu aos seus rabiscos, ou seja, as suas tentativas frustradas de ser poeta, o predicativo da perfeição. Mas, logo desistiu da ideia, o talento lhe faltava, embora insistisse com as letras.
Ficou dias com “o que mais beira a perfeição”. O elogio o intimidou, não sabia lidar com tamanha responsabilidade: ser perfeito para alguém. Era muita coisa, lamentava. Passados os dias, a preocupação foi embora. Entendeu que a perfeição não estava nele, mas nos olhos de quem a enxergava. E era apenas ela quem via tamanha excelência. Acaso ela fosse a que mais beirava a perfeição...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Quem cochicha o rabo espicha...

Quem fofoca o rabo entorta.

De lá: http://www.mexendonabolsa.blogspot.com/

Eu prefiro a ausência de palavras às frases desordenadas, que ditas compulsivamente destoam sentidos.

Quem nunca foi vítima de fofoca, por favor, levante a mão. Não, ninguém aí? Pois bem, daí o meu desprezo por afirmações não baseadas em fatos concretos, pela especulação - mesquinha - à vida alheia.
Mulheres fofocam mais que os homens (eu acredito nisso, mesmo que pesquisas mostrem o contrário). Tenho muitos amigos do sexo masculino e nenhum deles se atreve a gastar tanto tempo falando da vida do vizinho quanto à mulherada. Tenho muitas amigas também, elas são capazes de passar horas contando detalhes dos detalhes dos detalhes daquele detalhe que a fulana falou para a sicrana, que jura que ouviu da boca da beltrana.
Não tão difícil de admitir, mas, vergonhoso: minhas companheiras de gênero são fissuradas por uma novidade, por um babado. Não nego que também gosto de estar informada acerca da vida dos outros, principalmente se for de pessoas que eu conheço e não tenho certa estima. Contudo, na maioria das vezes, desprezo os burburinhos, o disse-que-me disse, o telefone sem fio.
Já fui autora de um sexo que não pratiquei. Beijei bocas que nunca toquei, gostei de quem nunca conheci. Também já levaram a outros ouvidos o pedido que eu jamais mencionei e afirmações que eu não declarei. É por isso que eu prefiro o silêncio. Palavras em exagero fazem mal à saúde – o Ministério da Saúde deveria alertar a respeito!
Fofocas, frequentemente, são hipérboles. Não gosto de nada em excesso, pois, mesmo que por vezes eu seja excêntrica, primo pela descrição, pela transparência. O exagero me lembra encenações do tipo novela mexicana, histeria, falta de senso e equilíbrio...Psiuuuuuuuuuuuu, silêncio. Por favor!

“Se as cores vão berrando num sol ensurdecedor
Fecho os olhos Â... Outro mundo
Vou morar no interior
Transbordou a mesa ao lado
Um tsunami arrasador
Fecho os olhos Â... Outro mundo
Vou morar no interior
Eu tenho fé na força do silêncio
Eu tenho fé na força do silêncio”
A força do Silêncio, Humberto Gessinger/Duka Leindecke. Pouca Vogal.