terça-feira, 10 de novembro de 2009

Doping, por favor

Hoje bateu a saudade dos meus tempos áureos, daqueles dias que me ligavam para mimar ou das noites mal dormidas devido a um bate-papo, sem nexo, no mundo virtual. À minha memória remetem cenas bregas de relacionamentos sem futuro, sem regras e sem monotonia. Épocas em que a instabilidade reinava e esse era o charme. Era o tal do amor que batia na porta mas não entrava e que chutava para o gol, mas era contra. Tempos em que os jogadores poderiam ser escolhidos a dedo, e ainda tinha a reserva. Que beleza! Então, o jogo acabou. Limito-me às lembranças das investidas não vestidas. E, com isso vem a vontade de trocar de categoria. Quem sabe basquete? Pois eu quero cesta! Entretanto, para ser cesta tem que ter a tal da habilidade e da sorte. Eu sou desprevenida, sem dotes e sem sorte.

* http://www.youtube.com/watch?v=wuEdS4zYhVg

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A queda do palco poderia ser a do preconceito

“O Brasil tem esse lado cor de rosa, a maior parada gay do mundo, a maior associação de gays, lésbicas e transgêneros da América do Sul. E tem o lado vermelho-sangue: a cada dois dias, um gay é assassinado.” Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia

Foi hoje, o palco caiu e junto com ele o Governador do Estado, Roberto Requião, que sofreu uma luxação no pé esquerdo, mas passa bem. Nenhum outro arranhão, nada grave. O fato ocorreu na solenidade de entrega de ônibus - daqueles que ele tem distribuídos aos montes - na cidade de Paiçandu, no noroeste do Estado. A queda do palco poderia ser a do preconceito, mas, uma pena, não foi.
Na semana passada nosso queridíssimo chefe de Estado mostrou, mais uma vez, a sua intensa (ou será extensa?) ignorância, ao dizer que o câncer de mama nos homens pode ter aumentado devido às passeatas gays: “A ação do governo não é só em defesa do interesse público. É da saúde da mulher também. Embora hoje o câncer de mama seja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatas gay", disse ele, ao anunciar as ações para o controle da doença no Estado. Pronunciamento infeliz, triste, tristemente.
Com os pés fincados no século 21, nosso País, ainda, teima em cavalgar à moda Idade Média e o tio Requião é apenas mais um destes típicos cavaleiros medievais. De acordo com a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travesti e Transexuais (ABGLT), o Brasil, mesmo tendo a maior parada gay do mundo, a de São Paulo, é o País que mais mata homossexuais no planeta. No ano passado foram registrados 190 assassinatos, um a cada dois dias, superando a média de 2007, ano em que houve 122 homicídios. Este ano, só no Paraná foram mortos 19 gays e travestis.
Campeão mundial em crimes de homofobia, o Brasil, quando comparado com os países prata e bronze, ganha em disparada no quesito ignorância. Em segundo lugar está o México com 35 assassinatos anuais (aqui são 190) e em terceiro lugar, bronze ignorância, nosso Tio Sam, os E.U.A., com 25 crimes por ano (aqui são 190).
A sociedade do livre arbítrio, por ora, não sabe lidar com o diferente, embora propague aos quatro ventos que sim: ‘viva as diferenças’. Mais de 3 milhões de pessoas vão à parada gay de São Paulo e o Brasil foi a primeira nação que realizou a primeira conferência GLBT do mundo, além de ter o primeiro presidente que apresentou um programa nacional para os gays. Quais são os frutos disto? Um arco-íris de hipocrisia. É o preconceito enrustido, expresso nos números de assassinatos de homossexuais que é crescente ano a ano. As estatísticas são altas e declarações como a de Requião só fomentam o preconceito, a discriminação e a violência à classe...Alguém aceita mamonas de sobremesa?



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Falando de amor

A felicidade se encontra nas pequenas coisas da vida, é o que disse, não necessariamente nesta ordem e desta maneira, um poeta brega ou uma música sertaneja. Para não haver brigas ou acusações de plágio, concordo com os dois.

Chego em casa, depois daquele dia exaustivo. É ele quem me recepciona. ‘Onde você tava?’, pergunta, com aquele olhar de que por horas me esperava. Caminha na minha direção, enquanto termino de fechar o portão (rimou). Ele pega na minha mão e começa a tagarelar. Fala das guloseimas que comeu, comenta da escolinha, fala que quer ir no circo – ele jamais esquece do circo. ‘Vamos na piscina, vamos?’. Só tenho tempo de fazer um ou dois comentários e dizer que a piscina fica para o fim de semana. ‘Mas eu tô sem fralda, tia’, lembra ele - sempre falo que ele só pode ir para o clube depois que não usar mais fralda, ele levou a sério, e tem se empenhado, também argumentado, claro. De mãos dadas seguimos até a cozinha, onde paro para beber uma água. Sigo para o quarto e ele corre atrás, tagarelando novamente. É isso que me deixa feliz. Simples, assim ó!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cotidiano

Sobre perspectivas, destino, condição. Sobre eu e você ou talvez nada disso

Emprego fixo para quê? O salário baixo ainda não contribui para que ele compre aquele carro almejado, aquele tênis da moda, aquela blusa de marca. Também, ainda, ele não pode comprar o sobrado que ele paquera, há, pelo menos, uns dois anos. Ele estudou quatro anos para isso: viver limitado ao seu semi-salário. ‘Você está em começo de carreira, é por isso, já melhora’, consolam-no. Enquanto isso ele imagina. Pensa no que ele queria realmente ter feito: viajar. As viagens sempre foram seu ideal, seu projeto de vida, seu consumo. Então foi estudar, pois pensava que depois de formado teria a grana para viajar. Enganou-se. O mundo adulto lhe deu uma rasteira, vieram as obrigações, a contribuição em casa, a compra do mercado, o pão do café da tarde, a gasolina para ir até o cinema, o remédio quando ficou doente. E, ainda, tinha o cabelo que deveria ser cortado, os dentes que deveriam ser tratados, o presente do amigo, o computador que quebrou. Desistiu das viagens. O seu empecilho foi a responsabilidade, que o impregnou de cuidados, que o impediu de agir por súbito. E assim, lentamente, o homem que se dizia do mundo, tornou-se enraizado. Teve bom emprego, fez carreira, casou, teve filhos. É feliz. Mas, de vez em quando ele engasga e por um bom tempo viaja, viaja em seus pensamentos, relembrando seus mais absurdos sonhos, seus mais atípicos desejos. E, então, ele se recorda de sua frase clichê, dita à sua mãe quando tudo parecia dar errado: ‘Se nada der certo eu fujo com o circo’. Ele ri. Aos quarenta ele, ainda, acredita que dá tempo de fugir. Só não sabe como. ‘Pai, me dá um braço’, escuta.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

E se eu cair?

Já faz um tempo que ouvi de uma amiga que “a Lari doce” já não existe. E a constatação de tal transformação só me ocorre agora. A ficha caiu...Recebi uma notícia, destas que mudam a vida de uma família inteira, que traz esperança, que recicla. Ela é boa, e, apesar de boa, ela, ainda, não me trouxe ânimo. Eu enrijeci e perdi a ternura. Os calos não me permitem pular, abraçar, agradecer. E guardei a felicidade para o momento certo, para o instante em que aquela notícia seja, realmente, oriunda da vida nova, da reciclagem. Do bem-estar. Guardo-a para a hora de me despedir, definitivamente, dos dias sombrios e das lágrimas constantes. Com este adeus eu espero recuperar a minha docilidade. Entretanto, a fortaleza que me transformei – que há tempos não combina com a minha frágil aparência -, impede-me de pensar desta forma. Meus pés ainda não flutuam, permaneço fincada no chão, com as asas podadas. Preciso de mais um tempo, porém, já imagino o dia do meu voo certeiro.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Promoção

Primeira vez que o vejo e ele já vem com um “paixão”. Não deu certo. Detesto paixão, amor e todos os seus derivados: mor, morzinho, morzão...mo. É muita intimidade para pouca coisa, na verdade, por pouquíssimo tempo. Prefiro ser chamada pelo nome mesmo, talvez pelo sobrenome ou um simples você (nessas horas a segunda pessoa do singular soa perfeitamente). Depois vêm as flores, como se elas fossem mágicas e pudessem me encantar. Ele deve imagina que eu as recebo e sinto o cheiro, que emanaria o tal do amor. Seria certeiro. Mas comigo deu errado. Sem flores, por favor, não gosto de flores (mentira, eu gosto, mas se não há química, quem dirá flores). Na seqüência, o celular. Ele não para de tocar. O celular tocando depois daquele semi-encontro me apavora. Deixe-me na expectativa. É gostoso sentir borboletas no estômago, ficar na dúvida. A certeza nem sempre é positiva, eu acho. Em seguida, o grude. Atraio vários chicletes e dos mais variados sabores. Não sei bem porque, vai ver que é o meu signo e os tais dos ascendentes. Não ao chiclete! Ainda não sobrevive a um relacionamento que eu me doe por tempo integral. Eu preciso de ar. O ver todo dia não me enjoa, mas a toda hora, me invade. Mas hoje, tudo bem, eu estou disponível para às 24 horas. Rendo-me à mesmice e à banalidade. Pode começar a me ligar, suporto o “paixão” ou outros apelidos de mau gosto. Me ligue, me mande flores, eu vou adorar - por pouco tempo (é apenas a carência me visitando).

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Meu Brasil brasileiro



Brasil, 07 de setembro de 2009.

Aos cegos que não leem braile

Aqui tudo que se planta dá e tudo que é gente ginga, batuca, canta, mexe, dança. E como dança. Em solos verde-amarelos o rebolado é necessário, a tal da ginga é fundamental. Tem gente que já nasce com ela, herança de família, e outros, para não ficar para trás, aprendem rapidinho a coreografia, e que sintonia! Se não é esperto, se não for do batente, aqui dança. Aqui você só não dança se for bandido, político e ladrão – daí você mesmo cria uma coreografia e comanda os bailarinos, mas esta dança é vulgar. Dela não se deve dançar.
Bandido, político e ladrão à parte. Quero falar do que é bom, porque por aqui todo mundo anda vendado. Fecham-se os olhos para o melhor assim como os fecham para o governo que rouba, para a policia que mata e para lei que não é cumprida. Se a cegueira é o melhor remédio para aquilo que é ruim, pode ser que enxergar o bom seja o melhor meio para fugir da autodestruição (se vemos o bom: valorizamos, cuidamos, protegemos).
O pulmão do mundo está aqui, bem aqui. Todo o mundo já o avistou, menos os nativos (recado de urgência: tirem a venda!). De cada quatro espécies no mundo, uma está por estas matas, todo o mundo já viu, reviu, conferiu. E você? Agora até petróleo o Brasil tem, e todo o mundo ficou de olho, inclusive os brasileiros (Biiiiiiiiiiiiiiiiiii, biiiiiiii – apitou o detector de mentiras, brasileiro ainda não viu). Contudo, mesmo assim, no breu, o pré-sal é nosso. Também teve a crise. Ela veio, e não quebramos. Apontaram-nos como o país do futuro. Ninguém conseguiu ler, a vista, viciada, não deixou.
Aqui tem mulata que faz macarrão, branca que samba e índio que come enlatado, além dos estrangeiros que fazem tudo isto muito bem e com muito gosto. E para essa mistura não se teve/tem receita. O ponto surgiu naturalmente. Misturou tudo, mexeu bem: tá no ponto!
No Brasil tem japonês que é católico, negro que é evangélico e branco que é budista. Têm também os portugueses, italianos, ucranianos, holandeses (e tudo o mais aqui se encontra) que freqüentam terreiros e rezam para orixás. O nome disso tudo é diversidade cultural, porque aqui se tem arte, tem língua, tem crença, tem culinária e hábitos, mesmo que mais da metade da população não saiba, ou melhor, não vê.
Agora, o mais irônico: aqui ninguém se enxerga. A nação verde-amarela é capaz de ver de longe o que os vizinhos fazem, mas é incapaz de avistar o próprio umbigo – talvez por isso fiquem de olho no alheio. A população brasileira é uma das maiores do mundo, e, absolutamente, a mais impar de todas. Os nativos dessa terra são dotados de uma amabilidade única e inigualável. O calor humano do povo daqui é intenso, o afeto transmitido por eles é transcendental. Por isso, com precisão afirmo: foi aqui que inventaram o abraço.
Depois do carinho, o que mais chama atenção nos brasileiros é a arte de saber improvisar, de saber se virar. A arte de se desdobrar e ralar estão no sangue. Corre nas veias deles a força de vontade de viver, de vencer. O porém é que eles não sabem disso. Na verdade, não conseguem ver tanta possibilidade, tanta capacidade, tanta virilidade.
É uma pena que a cegueira coletiva impere no país do futebol e do carnaval – é lógico que o Brasil é muito mais do que isso, se assim falo é porque isto é o pouco que eles conseguem enxergar. Dizem os mais positivos – a minoria, claro - que aqui é um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Eu fico com eles, sim é com certeza.

OBS: Talvez isso aqui não seja uma carta. Talvez os pessimistas continuem pessimistas. Talvez a visão retorne (será que algum dia nos enxergamos?). Talvez o carnaval tenha fim e o futebol azar. Talvez seja só uma névoa. Feliz dia da pátria!

Olhos cor de mel